Desesterro no Suplemento Pernambuco

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Muita felicidade ter o Desesterro resenhado pelo Rodrigo Casarin e no Suplemento Pernambuco! A resenha é do tipo que eu gosto de ler: com trechos do livro, entrevista e o frescor de uma leitura atenta, tudo costuradinho. Também me botou muito a pensar (não conhecia Vilaboim, por exemplo), então devo voltar com uma resposta afetiva a essa leitura. Aqui vai um trecho! Na íntegra tem lá no Suplemento Pernambuco.

“Eu escrevo porque há lugares aonde não chego sem escrever. Porque escrever é um ato mental e corpóreo que me conecta com minha ancestralidade. É minha maneira de rezar pelos mortos silenciados, os mortos sem tumba, não identificados. Tem uma fera vivendo dentro de mim e ela só respira quando eu escrevo. Todo o resto do tempo eu sou estrangeira, vivo na língua dos outros, escrever é minha casa, é onde posso caminhar sem sapatos. Parece romântico? Não é. É político. Qualquer periferia é longe demais, eu demorei vinte e quatro anos para chegar no centro de São Paulo, o pé na porta. Para qualquer pessoa com um pingo de cultura preta, ir para a escola é ir para outro país, e eu lia muito para descobrir como viviam nesse lugar imaginário chamado Brasil. Ser mulher, ser da periferia, é viver de favor em sua própria casa e a gente tem que ralar muito para se perceber no direito de abrir a geladeira. Foi através da literatura que entendi quem eu sou, que me conectei com meu corpo branco de cultura branca e preta, com a felicidade histérica da minha infância em Diadema. Troquei a culpa que tinha por ter tão mais do que tanta gente, mesmo quando não tive o suficiente, pela determinação de usar meus privilégios na luta pelo que acredito. Eu não vou parar de escrever porque os leitores são raros, eu vou continuar justamente por isso. A gente precisa sair de tantos armários e a verdade é que nem todo mundo tem mão para abrir a porta.”

O discurso de Sheyla Smanioto, 26 anos, é forte, bem como sua literatura. E se “lia muito para descobrir como viviam nesse lugar imaginário chamado Brasil”, em Desesterro, seu romance de estreia, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2015 e publicado pela Record, ela compõe um recorte de seu próprio Brasil. Imaginário, sim, mas também horrivelmente real. Personagens pobres e femininas habitam cenários desoladores como Vilaboinha. Curioso notar o nome escolhido para esse lugar terrível e miserável, diametralmente oposto à praça Vilaboim, em São Paulo, no coração de Higienópolis, um dos bairros mais ricos da cidade mais rica do país. A proximidade entre os nomes é imensa, já a situação deles…

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