Crônicas do Desesterro: “Ler é devorar a fome dos outros”

Encontrei o Desesterro numa leitura, estávamos lendo em voz alta, eu e Carla, quando ela lembrou que já tinha ouvido essa história, essa história que estávamos lendo e que era o Desesterro, essa história que eu acreditava estar inventando, ela já tinha ouvido. Da vó dela. Uma história parecida, não essa, outra completamente diferente, mas nenhuma história sobrevive exata, essa é a graça, a gente nunca sabe o que as histórias tiveram que fazer para sobreviver.

De minha parte, posso garantir que não conhecia o Desesterro quando comecei a escrever, teria me poupado um bocado conhecer o Desesterro antes, encontrar pela rua, mas eu não conheci, eu tive que arrancar o Desesterro do corpo e da memória como um sonho que eu esquecia e lembrava para poder voltar a respirar. Um acordo que eu fiz com o demônio da escrita, um acordo para viver a loucura sem sucumbir tanto, sem perder o meu tamanho.

Um sonho. Os personagens na sombra, eu ouvia a respiração de cada um deles.

O Marcelino encontrou o Desesterro num parto, o parto da Fátima, a Fátima pariu o Desesterro para o Marcelino, ele circulou com caneta azul bic e disse: aqui está seu romance. Como se me apontasse na maternidade o filho. Meu trecho preferido. O que eu coloquei ali por amor, por puro amor. O que eu achei que fosse escandalizar os leitores. Não os estupros, a poesia. O parto do Desesterro.

Nasceu prematuro, deformado pela vontade que eu tinha (que eu tenho) de usar as palavras com os mortos ainda dentro. De não limpar as palavras. Nasceu sujo, tive que aprender a cuidar, tive que sobreviver ao Desesterro para depois descobrir que tudo talvez seja apenas a sina de quem tem Plutão e Sol em quadratura. Não sei.

Encontrei o Desesterro naquela expressão, “devorar um livro”, essas expressões são a língua falando com a gente, piscando, a língua mostrando o tempo que lambe as palavras suas crias. Os mortos que uivam dentro delas. O que importa. O livro e a fome são tudo que importa. A última frase que escrevi, e escrevi como se todo o livro tivesse nascido apenas para me levar até ali: ler é devorar a fome dos outros.

Poderia também ter dito: escrever é deitar no próprio estômago e brotar antigo.

Eu tentei escrever por mim, sendo hoje, juro que tentei escrever sobre vampiros e outras coisas geração y. Vou dizer que não consegui porque quando a gente escreve assim depois de tanta gente não ter conseguido, a gente tem que escrever com toda essa gente morta na praia, os diários queimados da minha vó, meu tio que registrava em um cadernos todas as notícias, os passes do Corinthians, não posso escrever só por mim. Não hoje.

Pode ser Plutão e Sol em quadratura, astrologia às vezes é profecia: quem nasce assim ou aprende que não controla, ou amaldiçoa gerações e mais gerações de dias. Não sei o que é, se é mesmo sina, mas foi só assim cavando para fora que entendi que todo esse tempo só o que fazia era aumentar minhas próprias mentiras, era deixar enormes cada uma das minhas cismas. Elas não são minhas, nunca foram. Nenhuma pessoa é uma só.

O Desesterro é uma história de terror, nada me assusta mais do que a fome, nada assusta mais o meu corpo do que ele mesmo. O Desesterro é a história de uma migrante, é a história que me pegou pela mão me levou pra São Paulo. Vinte e quatro anos para chegar no centro de São Paulo. Escrevi o Desesterro quando entendi que nem todo mundo é da periferia, que não é sobre a gente que a psicanálise fala, que os livros são os melhores túmulos e as histórias da periferia têm apodrecido à céu aberto.

Essa é uma história do Desesterro.

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Esse artigo foi publicado primeiro no blog Estudos Lusófonos, corre lá que já já vem o próximo.

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