Estranho, cruel e performativo

desesterro, notícias

“Segunda. 16h40m. pág. 301. Finalizo o Estranho Cruel e Performativo “Desesterro”, recém premiado romance da sangrenta Sheyla Smanioto.

Enfim, um verdadeiro convite para (re)conhecer nossas vísceras, saboreando cada página como quem abandona a noite para dormir com os cães. O livro chama para o encontro, a presença, o risco; pede orelhas, marcas, borrões de café, migalhas de biscoito; pede todas as coisas distantes do abandono.

As folhas do livro derretem, juro! Junto delas a nossa insuficiência de pausas, a nossa mania de entender – posta à prova e apreciação – a chance única de dividir instantes de luz com a autora, através dos “sem nomes” de suas marionetes vivas e sem órgãos, que povoam Vilaboinha morando em nosso estômago.

A Sheyla tem um negócio esquisito e sujo de fazer a gente se enterrar, ler suando, virar chão e nascer semente. A Sheyla mente, sente, tem essa coisa de falar de gente quando todos falamos de nós. É uma bruxa louca mesmo, dessas que morrem na fogueira para eternamente assombrar o passado, o presente, o que resta de futuro… Ela descobre o mundo pelas cicatrizes, ela tem a chave.

Pelo amor dos Cães, leiam essa dádiva! Ah, vale cutucar o nariz, a autora alerta: “Palavra é igual reza, não perdoa, devora a gente pela boca, rasga, amaldiçoa. (…) A gente é Bicho” Quem não comprar e ler, vai morrer…

Obrigado Sheyla, Obrigado…”

Rafael Lorran é ator e dramaturgo

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