Desesterro: trecho

Fátima não tinha nem uma moeda quando foi até a rodoviária pela primeira vez perguntar onde é São Paulo, como faz para chegar. Na ida passou depressa pela janela do louco, feito diabo fugindo da missa, pra não ver sua pele larga, o braço faltando, suas feridas. Do lado dele uma coleção de santinhas. Na volta encontrou o louco enfurecido, socando com força o pinto dentro da mão o pinto Deus que lhe perdoe, chamando vem cá minha cabritinha.

Quando de novo foi até a rodoviária, sem dinheiro certo, ela sabia, passou bem devagar diante do louco, devagarzinho para bem ver suas feridas. O louco só dizia vem cá vem cá minha cabritinha, e a Fátima ficou vendo a pele exposta o pus a chaga, a Fátima ficou vendo a carne à mostra a parte que não tinha, a Fátima quis chegar mais perto e o louco vem cá vem cá minha cabritinha.”
Ela saiu correndo se meter no banheiro da rodoviária. Ficou lá bem uma hora, esfregando na quina do móvel encardido tudo o que podia ela esfregava enfurecida no louco encardido, não parava de pensar naquelas feridas, Deus que lhe perdoe, gostoso demais. Já pensou abrir tudo chaga ferida, já pensou estourar a carne lamber o sangue partes escondidas. gostoso Gostoso demais, dá até lombriga.

Foi voltando pra casa e o louco vem cá vem cá minha cabritinha, e a Fátima por dentro se ardia, e por pouco a Fátima já não ia. Foi voltando pra casa chaga ferida, foi voltando pra casa carne úlcera lombriga. Voltou de ir embora apertando as pernas, encontrou a porta, o louco de costas, foi correndo fechar a janela, o louco nem sabia o que fazer o que queria, o louco de repente criança se benzia.

A Fátima o corpo ardendo, a Fátima suas próprias feridas, chegou no louco que nem louca varrida, esfregou seu corpo contra o dele cadela no cio esfregou seu corpo contra o dele vaca faminta e seu corpo contra o dele esfregando era sangue, pus, escarro, era pele solta, escama, era carne, osso, terra louca, borra de café, mapas, o louco viu tudo. Seu próprio destino nas borras da pele de Fátima.

A Fátima cabrita se esfregou toda nas feridas, metendo os dedos entre as peles penduradas, o louco doido, socava socava o pinto, enfurecido, e a Fátima louca foi se enfiar não o pinto, mas o toco do braço perdido, a cara metida nas feridas, o pus rasgando a pele pra explodir, o louco gritando que não queria explodiu mesmo assim de alegria, era o corpo, era o corpo que pedia.
O louco ficou chorando de felicidade. Quem não quer abrir brotoeja quem não quer cutucar úlcera quem não tem um pinto pra se enfiar qualquer buraco aberto na carne, quem não tem pinto conta com a carne que sobra nos outros, gostoso demais, a carne que sobra o toco sempre metade, gostoso demais ser comida pela parte que o louco não tinha.

A Fátima foi correndo embora, braços partes cabeça quentes, passos urgentes, foi embora enorme maior que tudo a gente, foi correndo foi dar jeito na menina em seu cão dormindo, a Fátima foi embora bagunçando a estrada foi correndo louca, cabritinha não, cadela, e o louco chorando de felicidade nunca mais deixou aberta a janela.


No Clube de Leitura do Sesc Ipiranga, aliás uma das experiências mais incríveis que tive como escritora (obrigada demais pelo convite e pela leitura, Fernando!), a Andrea del Fuego começou as leituras com esse trecho e é justamente o meu preferido então eu resolvi trazê-lo para vocês. No Clube há o encontro com leitores, com possíveis leitores e com o próprio Desesterro, eu não podia estar lá e ao mesmo tempo não poderia não ter ido. Guardarei a experiência como um amuleto. A todos vocês, ofereço outro pedaço do livro.

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