Não é bem um estupro

Eu não ia escrever. Acho que minha melhor contribuição para a questão do estupro é o Desesterro. Coloquei tudo ali. Lembro de um leitor, perspicaz, me perguntar se o Desesterro é mesmo o corpo de uma mulher. Devia ter respondido: não, não é o corpo de uma mulher, parece um corpo mas é só a pele dura contorcida, é só a minha pele deixada no chão para doer sozinha.

Ser mulher é morar de favor nesse mundo, sabe? É dar cada passo pedindo uma permissão silenciosa e ainda assim andar bem devagarzinho para não fazer barulho e nunca abrir a geladeira e sempre agradecer por tudo. Ser mulher é viver de favor em um corpo e os donos às vezes precisam do espaço então você se esconde num cantinho e tenta não fazer barulho enquanto eles remexem e bagunçam tudo. Você agradece. Por estar viva. Não é bem um estupro, dizem. Mas a culpa é sua.

É uma violência de todo dia. Já me fez querer desaparecer e muitas vezes preferi ficar em casa, onde não sou um estrangeiro tentando não dar muitas gafes na língua do meu próprio corpo. A verdade é que um abusador não está preocupado com o que você tem para dizer. Ele já sabe, ele já nasceu sabendo, você é só um tabuleiro para ele conversar com os próprios desejos. Eu coloquei tudo ali no Desesterro para não ter que sonhar mais com isso e é curioso como os homens leem e falam em fim do túnel e as mulheres leem e falam de esperança.

Fica sempre o convite para que leiam a minha e todas as outras experiências, o mundo está cheio de mulheres tentando falar. É urgente ouvir.

Será que se a gente bater na louca e disser loucura sua, ninguém encostou mão nem nada, a louca acredita e fica da surra curada? Vai ver a louca nem lembra de nada, diacho, muito menos da gente dando risada, vai ver a louca nem sabe lembrar. Será que ela lembra da gente batendo nela fazendo o que quiser? Será ela vai lembrar da gente da surra? Será que ela vai gritar? Será que a gente vai gostar? Mas se a louca lembrar é loucura, ninguém acredita, ela não diz nada com nada desde que perdeu família, ficou louca sem volta porque não consegue ter filha, nem fica ouvindo o que ela diz, nem fica.
Mas será que ela nem lembra da gente batendo nela rasgando vestido a mão nas costas, anda cachorra, é assim que Tonico gosta? Será que ela nem lembra da gente toda dançando em volta? Será que ela nem lembra da gente fazendo o que quer, as pernas duas varas estrebuchadas, as mãos nas costas secas, o peito apertado, o coração no chão? Será que ela nem lembra da gente fazendo seu bem, é assim que cura loucura, carne batida, farra dos bichos, vai, não precisa ter dó, anda, ela nem tem mais família, rasga, é só a louca de Vilaboinha.
Será que ela lembra da gente fazendo quermesse? Contando os pontos para ver quem ganha? A louca no meio, esparrachada, e a gente toda gritando apressada, vai, vai, vai, eles estão na frente, vai, eles botaram mais, vai, cabe bem mais cabelos na boca da louca. A gente toda tirando as unhas da louca, fazendo colares, será que ela lembra? As crianças contando seus pentelhos um a um para ganhar prenda, diacho, será que a louca lembra? A gente toda fazendo bandeirinhas com sua roupa, colocando bicho pra viver no umbigo da louca, diacho, já não tem mais volta, será que ela vai conseguir esquecer?
Se a louca lembrar da gente olhando tudo, rindo, cantando, a gente diz é loucura sua, Maria da Penha, você está inventando. Se a louca lembrar a gente não acredita, imagina, todo mundo fazendo fila pra botar dentro dela o que não coubesse, bicho, chicote de pesca, um braço. Se a louca lembrar a gente diz é loucura e ela mesma acredita, imagina se a gente ia fazer isso fila pra botar dentro dela tudo o que não podia, enxada, palma vale mais pontos, ovo de galinha. E se a gente esquecer não fez nada, é assim que se cura loucura rasgando tudo de cabo a rabo, surra pra louca da Penha deixar de ser retardada.
Olha, ficou inchada.

*A imagem é de Eleanor Adair.

Anúncios