Voyeurismo e barbárie, por Leonardo Munk

no ponto cego

Texto de apresentação da peça NO PONTO CEGO, edição da Escola Sesc.

Scan0001Embora o vocábulo voyeurismo consista, em sua primeira acepção, na prática da observação sistemática da vida íntima de outros, o fato é que hoje sua utilização pode ser indiscriminadamente aplicada tanto aos aparelhos celulares e webcams quanto às câmeras de vigilância empregadas em espaços públicos. Tal fenômeno decorre da cada vez mais acelerada indeterminação entre vida pública e privada, que, em um contexto de sociedade disciplinar, também se converte, graças à proliferação do uso e da fruição de imagens, em uma sociedade do espetáculo.

Em No ponto cego, da paulista Sheyla Cristina Smanioto, a atividade de vigilância por meio de câmeras é o motor da ação. Como explica Paraíba, “O trampo é basicamente esse: assistir essa TV sem graça”. À exceção da rápida entrada do guarda Pereira, Paraíba e Nilsão são protagonistas absolutos de um texto, cuja eficácia dramática é obtida quase que inteiramente das reações desses personagens frente às imagens vistas no monitor da TV. Afinal, emulando ironicamente os grandes dramas de uma nação que se vê – e se reconhece – no monitor dos televisores, os protagonistas de No ponto cego pouco se diferenciam dos inúmeros espectadores que se extasiam com a teledramaturgia brasileira.

Na cena em questão, que se desenvolve ao longo de um único ato, tem-se o treinamento de um funcionário convocado a substituir aquele que resolveu largar o seu posto na véspera de um clássico de futebol. Todo o diálogo, até o fim do jogo e a saída dos torcedores, consiste, portanto, no aprendizado dos macetes desfilados por Paraíba, deixando entrever inclusive uma gama de preconceitos sociais e raciais. É importante a percepção de que talvez o interesse que aferra Nilsão e Paraíba aos dramas da vida real seja a  real necessidade de satisfação de uma curiosidade doentia. As falas dos personagens, aliás, são extremamente bem construídas, dando a exata noção de um linguajar de certa camada da população.

A normalidade do ‘trampo’, contudo, é perturbada por um problema técnico. O controle social exercido por esse sistema de vigilância se vê ameaçado pela existência de um ponto cego fruto de um defeito em uma das câmeras. A onipresença do grande irmão de George Orwell é aqui posta em xeque. Longe de se servir do recurso do audiovisual como mera perfumaria, ou moda teatral, a autora o incorpora organicamente à estrutura dramática, conferindo-lhe a importância que ele, de fato, possui em uma sociedade midiatizada.

A crítica a essa estrutura social é forte, bem como o desejo de acentuar as frustrações e os recalques de uma comunidade marcada pela desigualdade e pela violência. Exemplo disso é a normalidade com a qual são tratadas as brigas de torcida e os eventuais suicídios nos trilhos de trem.

E, finalmente, para além das abordagens sociais e psicológicas de seus personagens e suas motivações, o texto de Sheyla Cristina Smanioto tem o louvável mérito de apresentar uma trama de suspense, que faz o leitor/espectador ansiar pelo desenrolar dos acontecimentos, alinhando-o àquela categoria de obras em que o entretenimento e a reflexão não são mutuamente excludentes.

Leonardo Munk é Doutor em Teoria Literária pela UFRJ, com doutorado sanduíche na Universidade Livre de Berlim. Atualmente é Professor Adjunto na UNIRIO, onde atua tanto na graduação quanto na pós-graduação. Dedica-se ao estudo das relações entre teatro e artes visuais, com ênfase nas tensões entre palavra e imagem, mito e história, memória e amnésia. É autor de textos publicados em livros e revistas acadêmicas, além de integrar os grupos de pesquisa “Formas e Efeitos, Fronteiras e Passagens na Linguagem Teatral” e “Linguagem, Artes e Política”.

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