Carta para quem

Roteiro para rádio |  mais sobre

Barulho de rodoviária ao fundo.

Atenção senhores passageiros, embarque na plataforma… repito: embarque…

até que ouvimos uma mulher falar:

– Não se apresse que não é o meu não. (barulho de papeis e mexendo em uma bolsa enquanto fala) Pegue sua caneta mais caprichada, que essa carta é pra destino dos importantes. (pequena pausa) E uma que amacie minhas ideias para que fique uma boa impressão boa de minhas inteligências… você sabe que as coisas depois que saltam ao papel ficam desembestadas, então não se avexe de dar um jeito nelas comportadas.

Sobressai o barulho da rodoviária: gente caminhando e conversando, avisos.

– Posso começar? Não vai colocar data? Então ponha aí: “es-ti-ma-do lei-tor”

Fala devagar, como se a pessoa que estivesse escrevendo o estivesse fazendo devagar.

– Mas não escreva assim lento como eu falo, que ele não gosta de enrolação.

– Escreveu? Estimado leitor… “Venho por meio desta”

Silêncio em que o barulho do fundo sobressai.

– Não, apague isso; que assim fica polido, mas como qualquer outro, e ele acha que não foi eu quem escreveu. Coloque assim: “Escrevo de uma necessidade im-pe-rio-sa; é que não soube responder pergunta que me fizeram cedo, e de não saber fiquei também curiosa e guardando a pergunta para mim trouxe agora para o senhor responder na maneira de suas palavras, que sabem mais do que as minhas”

– Escreveu? “na ma-nei-ra de su-as pa-la-vras que sa-bem ma-is do que as mi-nhas”

Ela repete lentamente, como se esperasse terminarem de escrever.

– Deixe eu ver… pois bem, escreva aí: “que não fosse como eu de não fazer pergunta, que as perguntas descaminham nossos pés, tiram-nos do chão para pô-los a sapatear suposições”

– “Mas não é que o moleque me chegou segurando as calças no quadril, mas deixando soltas as ideias? Pigarreou como quem fosse vir cheio de palavras compridas e me disse assim”

– Escreva agora com outra letra, para que ele não ache que sou eu quem estou dizendo; o moleque me disse assim: “Eu vim perguntar à vosmecê uma opinião sua explicada…”; agora largue o moleque e escreva com a minha própria ideia: “Eu larguei de estender as roupas, e quis por todos os meus olhos no menino”

– Escreva isso com bastante respeito.

– “O moleque chegara magrelo, mas vinha com as ideias gordas; sem se assustar de meu espanto, emendou logo dizendo: ‘vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é… divulgação científica?’”

– Quis a difícil resposta. Mas não escreva isso, que certamente fica explícito nas expressões anteriores. “Será que me punha responsável por essa tal? Por que vinha de sopetão me questionar sobre ela?” Não, apague isso; escreva apenas que o moleque me assustou e está bom.

– “Divulgação científica é dessas coisas que ficam por aí, e que talvez até se desfaçam se a gente se aproxima dela e pergunta a que vem”. Escreva isso com bastante ênfase nas bonitezas, que fica bem.

– “Não que eu não soubesse por hora da vida o que é divulgação científica”, escreva, porque não é certo ficar por aí desentendido de coisa besta feito essa. Bote força no lápis: “é que essas coisas às vezes custam a caber nas palavras. Por isso vim perguntar a você, que é gente de palavra e que entende mesmo as mais compridas. Porque sempre me pareceu que divulgação científica fosse dessas coisas de fazer caber – na palavra, na imagem, no som – um cadinho do científico”

– “Pelo caminho dessa carta, nenhum ninguém que me pudesse dizer sem coçar a cabeça. O livro que aprende as palavras veio com a informação seca” – escreva assim mesmo, para que me ajude a imaginação: “informação seca” – “de quem apenas diz que me diz, assim, sem manha: que a divulgação científica é o ato de divulgar a ciência. Dessas respostas que as palavras dão se se põem a falar em estado de mau humor, quero dizer, de dicionário”.

– “De gentes com informação torta vieram montes, tropeçando meu caminho: que divulgação científica é o que eu quiser que seja – é jornal, televisão, é arte: é até programa de rádio, se trouxer mesmo que nas entranhezas das ciências, das pesquisas e dos conhecimentos. Mas essas espécies tem de monte, dão que nem capim: e a divulgação científica fala disso tudo? Então ela deve falar é demais, é o que eu penso aqui das minhas suposições”.

– “Só se o jornal soubesse falar o que é divulgação científica, mas com jornais não me dou: eles logo engambelam… eu sapateio nas palavras compridas e nas fotos bonitas. Elas me entendem mais do que eu entendo a elas”

– “Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?”

– “E faça sem preâmbulos” – escreva de um jeito esperto: “Sem palavras dessas que ricocheteiam na gente. Que eu fico, por enquanto, aqui com meu conhecimento adivinhado: que a divulgação científica é dessas coisas que fogem da gente e que nos perseguem; que ela traz o científico na força de caber nas coisas das artes ou das palavras sóbrias. E se nada disso for, o seu contrário”

– “Grande abraço”. Agora deixe que eu assino, que isso eu sei fazer de coração.

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