Conto tirado de um poema tirado de uma notícia de jornal

experimentos literários

João subiu o morro da Babilônia afogado no suor e nas frutas sobrados da feira livre. Lá ele carregava os legumes e os dias, trazendo a noite com a força dos braços. No caminho de seu barraco, as frutas foram virando suco na queda morro abaixo e ele foi virando João Gostoso na caminhada morro acima. Deixou a Tonha, sua tia de dividir parede, gritando que era desfeita ele não nem jantar com ela.

Desceu o morro pisando nas frutas deixadas pelo caminho de ser novamente João Gostoso. No bar do Caxeta, bebeu, cantou, bebeu, dançou, e bebeu mais um pouco. Foi tropeçando entre tanta bebida, canto e dança e se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas. Subiu o morro sem marra, lavado de tudo quanto era sonho que naquela noite bebia, cantava e dançava. Lembrava a morena cuja dança parecia ser toda a sua vida.

João Gostoso desceu o morro da Babilônia, deixando para trás o seu barraco, para ir ao bar do Caxeta, sujeito marrento que se laureava “o dono da vinte de novembro”. Lá bebeu, cantou, bebeu, dançou, e bebeu mais um pouco. Com Jocélia chamando assim desse jeito, ele não pôde recusar um banho, e com ela assim desse jeito chamando, teve foi que se atirar na lagoa de roupa, coragem e tudo. Saiu da água para receber seu prêmio, as mágoas já desafogadas, prontas para qualquer tudo.

– Diz aqui, negão, por que é que te chamam assim “gostoso”?

João Gostoso desceu de novo o morro da Babilônia, fedendo a banana e a laranja, para chegar logo no bar do Caxeta, o Vinte de novembro, e chamegar com a sua Jocélia, com quem devia de casar. Bebeu, mas Jocélia não vinha, cantou, mas ela não chegava, dançou, mas ela não se encaminhava, e bebeu mais um pouco então, pensando em todas as coisas que não vinham, não chegavam e não se encaminhavam. Não quis nem ir à lagoa. Subiu o morro na marra, pisando nas coisas deixadas pelo caminho de ter sido João Gostoso.

Por diferente que se tenha ficado entendido, quem se jogou aquele dia na lagoa não foi João Gostoso, não – foi João. Parou de frente pro seu barraco, que engraçado, não tinha número. Deixou ali o Gostoso, com tudo que a ele se confundia (o molejo, a inescrupulosa felicidade). Desceu o morro. Por que diabos a lagoa chamava era assim, Rodrigo de Freitas? Subiu a maré, e João embaixo dela, todo morro, todo marrento, foi morrer logo afogado e por desfeita de mulher.

A notícia de jornal certamente dirá: João Gostoso morreu foi assim. Mas quem dirá que foi assim que ele viveu?

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Feito no encontro com o “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Manuel Bandeira.

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

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