Os horrores da fotografia

Existe uma doença cujos horrores acontecem apenas em sonho: a fotografia.

A hipótese de que as imagens têm alma pressupõe que as pessoas percam a alma quando fotografadas. Assim o defendia o narrador de A invenção de Morel, talvez porque sua própria vida dependesse da alma de Faustine guardada em sua eternidade fotográfica. Mais do que a alma, as fotografias arrancaram dele a pele, as carnes e os ossos; arrancaram, antes, a existência, fazendo-o dedicar-se ao contemplar moroso das imagens registradas. Arrancaram tudo, tudo.

Mas a alma, na fotografia, deve ser um pequeno vazio que a gente preenche para ver, naquele registro de luzes emitidas, uma respiração fundamental dos afetos. Então quem perde a alma não é Faustine fotografada, mas o narrador que a contempla, ou nós mesmos diante de uma foto: a gente perde momentaneamente a alma para a foto, e fica achando que aquela falta súbita é saudade, quando é falta súbita mesmo, é um pedaço da gente de repente amputado que o tempo – preguiçoso – cuidará.

Quem não tem uma fotografia que, encontrada no meio de umas cartas ou marcando a página de um livro, tira o chão de um momento seguro e derruba tudo quanto é afeto no chão de nossa vontade de estar junto? As fotografias aproximam, mostrando a distância. Faustine está diante dele, mas está distante em sua indiferença de imagem. Mostre a sua fotografia e traga a sua história para o nosso diário de sobrevivência; à maneira de A invenção de Morel, imaginamos que somente a multiplicação das imagens dará força à vida, mesmo que a custo de nossa pele, carne, ossos ou alma.

Para saber mais sobre o projeto, visite o blog Osso da fala.

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