carta para você que a noite desobra

Ontem te vi, palhaça augusta, a cada passo conquistando a inexistência. Não entendi a sola dos olhos gastas, os rasgos na face augusta. Havia algo que me quisesse dizer nos passos desesperados de atravessar a rua como quem, de desfrutar a rua com os pés? Havia algo a dizer na vontade de que a rua te desfrutasse os pés, e atravessasse o quem?

Percorrendo as ruas com as ruas / percorrendo em você subúrbios / desde a sola dos caprichos / para que morem, fedendo a sombra e a delírio / sem-tetos descalços leprosos pensamentos / desde a filosofia grega a filosofia gaga / tropeçando nas palavras, percorrendo-as / tropeçando as suas com as ruas / te percorrendo aos murmúrios / que os passos os afagos e as bitucas / deixam no chão do viaduto do Chá.

De outra forma escreveria esse bilhete apenas para dizer: é preciso pisar com a singeleza das luzes noturnas, ou os pensamentos acordam o dia. Mas cheguei tarde demais e quinze, você já havia saltado para fora de si e caminhava nas linhas de giz que mesmo ali, e mesmo à noite, delimitavam sua morte ao curto espaço do dentro.

Mas algo te embriagava os passos / pondo-os fora de si no tropeço / caminhando você afora, eu vejo / acariciar os limites do corpo / percebê-los no pêlo que salta / seduzi-los em uma dança noturna / até que eles deixem, distraídos / avançar-lhes a ruína desde dentro / e então a morte talvez seja / mais que um traço de giz um copo com vela / um corpo sem dono, cão noturno / vigiando as formas dos sonhos

então a morte talvez seja / apenas uma palhaça augusta / prestes a revelar uma vaidade / prestes a revelar-se como a noite / que as luzes maquiam prestes a revelar / olhos de uma melancolia augusta / cuidadosa de não lhe revelar a farsa / que é já ter nascido palhaça / e às vezes e só às vezes / dar-se à graça de ser pessoa / apenas para deixar de ser

Texto publicado no livro Olhares Cotidianos (re)velam o programa Turismo CO2 Neutro, junto com a carta:

Carta do texto insuficiente ao editor exigente

Querida editora exigente,

escrevo apenas para informá-la que não vou mais participar do livro. Entendo a solicitação, mas acredito que eu tenha minha necessidade, inclusive feita em relação aos cotidianos e às fabulações que perpassam os projetos de pesquisa e o evento envolvidos neste artefato, mas é que nomear tem o risco de tirar a melhor parte das coisas.

Ou poderia dizer, de outra forma: tentei nomear, mas os projetos me escaparam. Eu poderia tê-los identificado coisas, com o risco de que, como coisas, apodrecessem pela força dos dias; mas as letras têm a estranha força de eu já haver pactuado com elas, embora não me lembre de haver lido contrato algum: do meu querer dizer sobre os projetos, fotografei, na carta, o querer.

Madrugada a minha aldeia estava morta. Diante da clara cena de uma obsessão povoando um pensamento e o vento noturno buscando fabulá-la, fotografei, do silêncio noturno, o “noturno” das coisas. Não fotografei a palhaça, mas seu tropeço – como o tropeço das pequenas coisas para fora de si na fabulação / e seu tropeço ia carregando um sonho: esse de adivinhar nos limites alguma potência, de adivinhar nos cotidianos alguma fabulação.

Fotografei, a saber: ao invés de buscar a panorâmica visão clara das coisas / cheguei mais perto pela força de minha miopia textual, mas então – perto demais: onde deveria estar a paisagem clássica de um pôr-do-cotidiano, saltavam sem-tetos descalços leprosos pensamentos / desde a filosofia grega a filosofia gaga / tropeçando nas palavras, percorrendo-as / até chegar ao que não seria: / estranha carta, que conta das coisas pelo eco.

Eu fotografei o perfume, a existência, o perdão. Olhei uma paisagem desabando-se sobre si, com certa melancolia / e fotografei o desabando-se, rastro de melancolia. Olhei as palavras se dispondo em minha frente e, com a precisão cirúrgica de minhas alquimias, implantei partes / causei mutações / participações / monstruosidades / cotidianos / firulas / a saia da moça no vento / uma simplicidade / uma falta / ou não implantei nada além / de um querer-dizer tão forte / que fica assim, só querendo.

A foto saiu legal?

Abraços,

O texto insuficiente.

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