A invenção do inventor de Morel: tudo o que eu escrevo me mortifica

comentários amorosos sobre livros

Quando a energia, subvencionada pela dança das marés, torna-se inconstante, inconstante se torna o mundo que o narrador de A invenção de Morel vive: o verão se adianta, duplicam-se os sóis, restam-se impassíveis as plantas. Esses acontecimentos atiçam a curiosidade do fugitivo, que em suas investigações acaba por entrever o mecanismo que projeta, em uma realidade, outra: engrenagens que geram engrenimagens: uma máquina capaz de capturar e reproduzir no mundo, confundindo-se a ele, momentos elegidos para chegar ao sempre: eis a máquina de Morel.

Num sentido particularmente semelhante, é através da ambiguidade  que podemos entrever outra máquina funcionar. Afinal, em A invenção de Morel (La invención de Morel), Morel pode ser tanto o inventor que possui, portanto, uma invenção, quanto a própria invenção, se entendemos esta como processo e não como fim; por esse tecido, rasgado já na ambiguidade do título, entrevemos o texto se movimentando: eis a máquina da escrita.

É essa máquina da escrita o que mais impressiona em minhas constantes releituras de A invenção de Morel. Assim como em outros textos de Bioy Casares (a saber, os contos de Histórias Fantásticas), a estrutura policial investigativa deixa movimentar um tema filosófico-literário – nesse caso, a da relação entre o referencial e a escrita, a realidade e a letra. Digo estrutura “policial” porque, embora não haja um corpo morto movimentando uma investigação, há um corpo impassível (Faustine, a mulher por quem o narrador se encanta) que deflagra toda a ação; e digo que o tema é “filosófico-literário” porque a ação acontece, predominantemente, na especulação do narrador e em consequência da mesma, relacionando-o às imagens que ele vê confundidas ao mundo e à sua vontade desesperada de fazer parte delas.

Diante de uma situação incomum, de sóis duplicados e verões adiantados, o fugitivo de A invenção de Morel busca afirmar, com certo desespero, que sua narrativa é fiel aos fatos: “não os registro [os acontecimentos] para lhes atribuir valor de poesia ou de curiosidade, mas para que meus leitores, que assinam jornais e têm aniversários, datem estas páginas”. A peculiaridade daquilo que ele narra, porém, acaba por enveredar a ele e a sua escrita, transformando a narrativa realística em uma narração de como a máquina de Morel devora de fora para dentro as almas que preserva pela eternidade; mas não só as almas, e aí está o grande marco desta obra: a máquina de Morel, ou sua perspectiva, devora as ambições realísticas do fugitivo, transformando um diário – que organizaria o mundo e a vida, separando o comestível do venenoso – em um relato desvairado e poético.

A máquina de Morel e a máquina da escrita envolvem o narrador de tal forma que ele vende, a elas, sua alma: no caso da invenção de Morel, filmando-se junto àquele mundo para com ele não perecer; no caso da máquina da escrita, tornando-se incapaz de distinguir a escrita e a vida, vítima dessa peste que é o registro. É nesse contexto que ele diz: “agora estou sangrando pelo nariz; parece que os tímpanos se romperam”, e em seguida escreve: “ao narrar circunstancialmente esta ação, acabei por repeti-la”. Porque, no final de suas contas e das contas das amorosas escrevedoras de diários, a distância entre o narrado e o acontecido é um capricho, afinal o escrito se envereda e acontece na gente.

Esse romance tem o mérito de possuir uma aventura narrada e uma aventura na maneira de narrar. O narrador-ensaísta sóbrio, figura típica dos textos de Bioy Casares tal como o narrador de peripécias é típico das narrativas de Borges, dá lugar a um fugitivo desesperando-se para quem não há diferença entre um ataque de nervos e um ataque de versos.

É que escrever-inventar, para o fugitivo, é fazer uma realidade em virtude de não poder ter para si o real por inteiro além de consciências e linguagens; é domar, com palavras, o inóspito mundo que o cerca – desfazer-se em heresias artísticas, prometeicas, para fugir à solidão: assassinar o real pela arte, viver a arte para sobreviver ao real. Dessa necessidade de dissimular para sobreviver à solidão, para constituir-se enquanto indivíduo num determinado tempo e num determinado espaço, ele inventou uma trama, obra de arte que dele emerge e em que ele imerge, da qual ele precisa para sobreviver, embora acabe por aniquilá-lo.

Sobre

A invenção de Morel (Cosac Naify, 2008), de Bioy Casares. Primeira edição de 1940.

Anúncios