o pacto fotográfico

Texto publicado na revista STUDIUM, junto com as fotografias a que fazem referência. Veja aqui.

Não há palavra reta, sem reto corpo que a diga. Ou melhor: sem que se preveja um corpo reto que a tenha dito, como se de alguma forma as palavras retas fossem o resto dito de um corpo, e não o corpo o seu próprio resto – como parece ser. Mas as palavras tortas parecem querer juntar…

As palavras tortas, essas também nos fazem prever um corpo: um corpo morto, talvez ainda não inteiramente deixado para trás. Compõem poemas policiais, eles próprios prontos a morrer de escansão; afinal, poderíamos dizer: para um romance policial, para um furo jornalístico e para um poema torto, basta que haja um corpo morto.

Mas invadamos o furo jornalístico, deflorando-o, esgarçando-o até que nos libere, como seu fluido vital, uma manchete: “Escritos de pesquisador anônimo documentam a existência de um povo da escrita” (ou: “Bomba! A verdade está por fora!”). Mas algo falta…

Se há escritos, então há um pesquisador. Algo falta… um depoimento? Mas trata-se de um pesquisador anônimo, se ele aparecesse teríamos muito a explicar. Seus restos mortais? Mesmo que, de alguma forma, não guardassem seu DNA, podemos ler em suas cartas que suas pesquisas, e os riscos que ele assumiu, tornam difusas (se não irreconhecíveis) as cadeias celulares; provavelmente os testes resultariam no (absurdo!) reconhecimento de Borges, Bioy Casares, Felisberto Hernandez e tantos outros – de tal forma que teríamos ainda mais a explicar.

O que cheira a falta, então? É a fotografia, diz-se, e fotografia é sempre um pouco falta. Seria preciso forjá-las; quero dizer: tirá-las – seria preciso tirar as fotografias ou, dito de outra forma, tirar imagens das cartas, e tirar das fotografias até deixar somente o fotográfico. Assim é que vocês podem conferir, aqui mesmo nessa revista, a exposição de cartas e corpos, todos devidamente fotografados para que não apodreçam de realidade; todos devidamente fotográficos: trazidos sob esta técnica que guarda o menos dos corpos que o formol.

No final das contas, e peço desculpas por não tê-los avisado antes (isso talvez tenha sido inapropriado, mas de outra forma talvez não me prestassem a atenção), é preciso admitir: esse corpo que vocês vêem, esse corpo não é meu. Essa respiração que vocês ouvem, esse pulsar das coisas é apenas o eco inevitável de já haver sido corpo, “é o próprio corpo no limite de distensão e forças e que assim mesmo deve chegar mais longe” (Artaud, A arte e a morte).

Se escrever é, de alguma forma, saltar do corpo, é preciso dizer que nesse salto algo fica do corpo em texto (os verbos ofegantes, o ritmo percorrendo as veias): é preciso dizer que algo fica do corpo em nós mesmo que seja a sua inevitável… fotografia, esse controverso souvenir – que tira do corpo a superfície, que vai tomando-o até fazê-lo imagem-morta, esfolando-o como em A invenção de Morel?

E talvez fosse exatamente como um sonho ruim, em que se percebe fora do local do seu corpo depois de o ter carregado até lá. Daí talvez a grande ironia: quando “fora do local do seu corpo” quer dizer muito menos do que totalmente fora: teu corpo não te pertence, teu texto não te pertence – ele te vaga, ele divaga.

Quando se perceber fora do local do seu corpo depois de fazê-lo sofrer a falta dos sonhos depois de levá-lo de uma a outra amplitude de fazê-lo sempre incrivelmente maior ou menor do que você, onde já não pode satisfazer-se nada no sentimento que conservas de uma antiga orientação corporal – como uma gramática corporal, agora sem corpo como resto / rastro / folha / falha

a partir desses corpos que o texto forja na falta

essa pesquisa investigou esse vírus terrificante

cuja investigação só pode ser o contágio

e cujo contágio é essa escrita-louca

que fala de contágios e de vírus

que se transmitem da baba dos versos

(onde já se viu?)

e não é preciso lavar apenas as mãos

ou evitar o contato com os olhos:

é preciso o impossível – é preciso podar toda palavra

como se fossem pelos na pele / rugas / verrugas / berebas /

porque é nas palavras que o vírus, encubado, dá-se ao contágio

é ela, a palavra, que o vírus habita

se virem uma por aí, cheguem mais perto

e ouvirão, perto demais, um sussurro

(os ventos que habitam as palavras, seu coeficiente de ventosidade)

trata-se de uma íntima gramática

que relaciona a sintaxe do esqueleto à estilística dos pêlos;

nada pode fugir na constituição do corpo:

é preciso, afinal, manter a gramática.

Ou tudo vira um grande poema, quero dizer:

ou o corpo desaba, frágil que é.

E a fotografia, então, não serve à prova de uma existência, mas à contundência de uma ironia: ali, entre uma luz e outra, jaz um corpo de texto sem precedente. Apenas corpo de texto. Agora, ainda mais longe do “si”: apenas fotografia.

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